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Meditação: Maria, Serva do Senhor


(Meditação no Seminário Arquidiocesano de Maceió, em ocasião do mês mariano)



Estimados irmãos,

Saúdo a todos com grande alegria, pois vir à frente trazer-lhes uma meditação é uma grande honra. Ainda mais uma meditação acerca da Bem-Aventurada Virgem Maria, nossa mãe, a qual todos nós devemos nossa vida e nossa vocação.

Aquela que com sua pureza, é luz para a vocação universal da Igreja; Aquela que derrama incontáveis Graças a todo o povo de Deus e não cansa nunca de interceder por nós.

O tema proposto para esta noite é “Maria, Serva do Senhor”. Não podia ser diferente, pois servir ao Senhor é dizer sim diante de um chamado que brota no fundo de nossas almas, nos encanta, abre nossos olhos para a beleza e a perfeição, e nos conduz à sua luz e à sua missão. Este sim, todos nós o demos um dia, ao entrarmos para um caminho de consagração e conformação total da nossa vida com a Vida de Cristo, e o damos ainda mais, diariamente, ao corresponder com alegria e humildade aos passos necessários que são exigidos no Seminário.

Caros irmãos, para meditar sobre a servidão de Nossa Mãe e Mestra, gostaria de pontuar três dimensões de seu Sim. Primeiramente, irei trazer a reflexão sobre a Liberdade com que este Sim foi dado. Depois, sobre a Humildade de Maria que é a raiz e semente do amor de Deus para todos os santos. E por fim, sobre a Integridade do seu sim a Deus.

Importa, antes de tudo, que tenhamos em mente que o Sim de Maria não foi um sim qualquer de alguém que atende a um pedido de uma outra pessoa. Segundo o Evangelho de Lucas, Maria respondeu ao anjo: “Eis aqui a Serva do Senhor; Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (cf. Lc 1, 38). Iremos fazer algumas breves reflexões sobre estas palavras.

Maria, ao dizer “Eis-me aqui”, está trazendo diante de si a palavra que saiu da boca dos Patriarcas e Profetas que atenderam ao chamado do Senhor: Abraão, Jacó, Moisés, Samuel e Isaías. Todos responderam a Deus com prontidão. A história de fé destes servos de Deus, possui uma nota característica comum: as promessas que Deus lhes fez. Entre todas, certamente a mais importante é de uma Aliança que jamais seria desfeita, pois o próprio Deus, dispondo de sua fidelidade e amor eternos, realizaria uma obra de justiça que salvaria a humanidade inteira num só ato.

Deus encontra em Maria, não uma simples serva entre as demais ou alguém que se prontifica e corresponde positivamente ao chamado de Deus. As próprias palavras utilizadas para expressar a sua resposta - “Eis a Escrava do Senhor” (cf. Lc 1,38) – referem-se a uma realidade extrema. A palavra grega “Doulé” significa escrava no sentido mais forte da palavra, de quem tem a vida nas mãos do senhor, que reconhece que seu dono dispõe de direitos sobre vida e a morte daqueles que lhe pertencem. Maria não é apenas serva. Não, ela se ofertou inteiramente a Deus, renunciou os próprios direitos sobre si mesma e, assumindo por livre e espontânea vontade a condição de escrava, permanece para a eternidade diante de um Senhor Justo e Bom.







Maria, ao dizer sim, quis se utilizar de uma frase verbal muito conhecida dos judeus. “Faça-se”, que São Jerônimo traduziu por "Fiat" na Vulgata. A tradição da Igreja expressa o valor destas palavras ao demonstrar que, assim como o Espírito pairava sobre a criação de Deus no primeiro capítulo do livro de Gênesis enquanto Deus dizia “Faça-se”, da mesma maneira a sombra do Espírito Santo veio sobre Maria, enquanto ela pronunciava o seu “Faça-se”, de modo que o poder do Altíssimo a envolveu, estabelecendo nela a ordem da nova criação. Ela sendo uma criatura, encontrou Graça diante de Deus, para tornar-se o Paraíso do novo Adão, Jesus Cristo nosso Senhor.

Não quero com estas palavras encerrar todo o sentido do mistério, contudo, há ainda um último ponto que gostaria de trazer para esta meditação. Quanto ao sentido da expressão “palavra” com a qual Maria respondeu ao anúncio do anjo. A palavra grega, “Rhéma” quer dizer, não somente uma palavra encerrada em si mesma, mas uma palavra plenamente dotada de significado, seja uma realidade concreta ou denotando um sentido transliteral. A melhor maneira de compreender o sentido semântico do termo seria traduzindo-o por “promessa”; Esta que se refere à Nova e Eterna Aliança, de que uma Virgem conceberá e dará luz a um Filho, conforme a profecia de Isaías (cf. Is 7,14);a Igreja sempre creu que esta promessa se cumpriu na vida de Maria, Virgem antes, durante e depois do parto.


Quando a Ela nos dirigimos, prontamente nosso coração deseja exaltá-la e reconhecer seu papel singular como a Mãe de Deus. Ela que, com seu sim, em sua liberdade total, aceita a palavra do anjo e recebe em seu ventre o Verbo Divino, passa cooperar na obra de redenção da humanidade. Não tenhamos receio de afirmar junto aos santos: “[...] a carne de Cristo é carne de Maria, o sangue de Cristo é sangue de Maria [...]”, deste modo, reconhecendo na humanidade do Redentor o instrumento utilizado pelo Verbo Eterno, diremos sua Beatíssima Mãe foi, por desígnio d’Ele, associada à obra redentora.

Maria é exaltada em sua total liberdade. Deus concedeu livre-arbítrio às suas criaturas racionais; sua bondade libérrima permite-nos realizar a escolha livre de seguir o bem ou o mal, de realizar obras de justiça ou de iniquidade optando pela Verdade ou pela mentira. O santo bispo de Hipona afirma que o homem só é verdadeiramente livre quando governa sua vida em vista do bem, e que só consegue fazê-lo buscando conhecer a verdade. O Livre-Arbítrio, na perspectiva agostiniana, realizou-se plenamente na vida da Virgem Maria. Preservada de toda espécie de corrupção, jamais diria não a um chamado de Deus, nem numa suposição. Por ser totalmente livre é que sempre soube que, fazendo-se integralmente escrava de Deus, jamais poderia ser aprisionada ou escravizada. A graça de Deus age no homem libertando a sua liberdade, fazendo o homem verdadeiramente livre; enquanto as paixões, as propensões aos vícios e os pecados aprisionam o homem, tornam-no cada vez mais escravo.

Somente uma pessoa totalmente encontrada em Deus, de uma intimidade profunda, e de uma comunhão perfeita com o divino Criador, poderia dar um sim como o de Maria. Feita escrava do Libertador, é a mais livre dentre as criaturas. Sua escravidão é um modelo para nós que tão avidamente lutamos por liberdade. Que bom seria se todos os homens descobrissem esta escravidão libertadora, facilmente encontrariam realização, felicidade verdadeira e a paz.

Usando de liberdade, mesmo sendo onipotente, Deus quis utilizar-se de uma Serva para vir ao mundo. Tamanha é sua dignidade! Aquela menina aceitou de bom grado quando Deus a convidava ao holocausto de sua vontade. Também nós, meus irmãos, somos alcançados pelas graças que Maria, a serva na liberdade, faz irradiar de si, como um farol, para que nos façamos servos na liberdade.

Livremente aceitamos aquele chamado que brotou no fundo de nossas almas, conferindo significado e razão para nossa existência, e que acreditamos ser o sonho de Deus em relação a nós, desde toda a eternidade. Do mesmo que Ele desejou, pela a eternidade, ouvir o sim de Maria; agora quer ouvir o nosso. Nesta liberdade viemos a esta casa de Maria, assim devemos aqui permanecer.

A qualquer momento, podemos tomar de volta as nossas vidas, fazer as malas e voltar para o conforto de nossa casa. Somos livres! Contudo, se nossa liberdade só pode ser encontrada na opção pelo Bem e na busca da Verdade, nossa livre permanência e nossa prontidão para o serviço devem ser uma incessante busca por corresponder a Deus e servindo-O como fez a Virgem Maria. Nela nada havia que a desviasse de objeto de seu Amor. Se ainda existem inclinações ao pecado, temos de lutar bravamente.

Em Maria só havia a inclinação para a perfeição; nisto consiste a liberdade verdadeira: livrarmo-nos das amarras de Satanás, alçando voo em direção ao céu.

É preciso que, optando pelo serviço na vinha do Senhor, ocupemo-nos de cumprir duas obrigações primordiais: primeiro a dedicação indivisa de nosso coração ao Senhor a quem nos submetemos; depois uma perfeita configuração a Ele, para que estejamos unidos a Ele.

São Mateus oferece uma máxima conhecida de todos: “[...] um Servo não pode servir a dois senhores [...]” (cf. Mt 6, 24). Como Maria, faz-se necessário que tenhamos um coração indiviso, preparado para a provação. São João Maria Vianney, dizia que “[...] cada batida do nosso coração deve ser um ato de amor a Deus, que cada respirar fosse um ato de louvor [...]”. Em nosso serviço a Deus, precisamos de um coração totalmente devotado a Ele, nosso único Senhor; nunca ao dinheiro, à fama, às honras, aos títulos, aos elogios, à aparência, aos prazeres, aos bens materiais, e a tantas outras coisas que desagradam o Coração de nosso Deus.

O segundo ponto, sobre o serviço na liberdade, é que “[...] sejamos encontrados Nele [...]” (cf. Fl 3, 9). O chamado que Deus nos fez não foi em vão. Particularmente, tenho absoluta certeza, que ao reservar para mim a vocação sacerdotal, Deus preparou um caminho que resultará em minha realização pessoal e felicidade sem fim. Basta que eu coopere com a graça que Ele infunde em minha alma, capacitando-me para que possa seguir o desejo e o sonho de Seu Coração. Somente deste modo poderemos dizer que somos plenamente felizes. Estar encontrado em Deus é, portanto, compreender que Ele é o único que pode preencher o vazio de nossas almas, no dizer do Apóstolo, dar-nos o prêmio da vocação do alto (cf. Fl 3,14). Caminhemos rumo ao alvo, sigamos o rumo certo, com piedade, em devoção, na retidão de coração, sem nos desviarmos do objetivo exigido a todo cristão: a santidade de vida.




O segundo ponto desta reflexão é a respeito da humildade.

São Bernardo de Claraval diz que “[...] Maria se humilhou mais que qualquer outra criatura [...]”, e que, sendo Ela a maior de todas, se fez a menor, pelo abismo profundíssimo de sua humildade. Exatamente por isto Maria recebeu a plenitude da graça e tornou-se digna de ser a Mãe de Deus. Ainda o Santo Cura D’Ars nos diz que antes da Virgem Maria surgir sobre a terra, a cólera de Deus estava suspensa sobre nós como uma espada prestes a nos ferir, mas ao ver a humildade desta doce criatura, sua cólera logo foi abrandada. Eis que ela mesmo reconhece no Magnificat. “O Senhor olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1, 48).

Foi pela humildade de Maria que a salvação veio ao mundo. A humildade de Maria atraiu os olhos de Deus a ponto de Ele também humilhar-se. São Paulo afirma que Cristo, embora sendo de condição divina, não se apegou a ser igual em natureza com Deus Pai, mas humilhou-se, assumindo a condição de um escravo, se fez semelhante aos homens, ainda mais, humilhou-se e obedeceu até a morte numa cruz (cf. Fl 2, 6-8).

Irmãos, se queremos seguir o caminho de santidade em conformidade com a vocação sacerdotal, faz-se necessário que mantenhamos nossa atenção voltada para o essencial do ministério sacerdotal: O Sacerdote é outro Cristo! Homem retirado do meio dos homens, configurado a Cristo-cabeça para a salvação das almas mediante o ministério da Igreja. Configuração que implica, necessariamente, mortificação numa constante abnegação de si mesmo, em diversas renúncias. Todo sacerdote deve abraçar livremente a humilhação como alicerce de sua resposta ao chamado de Deus. Se for verdadeiro o nosso desejo de alcançar a dignidade de servos do Senhor, devemos ser como Maria, seguir o seu exemplo para que Deus possa olhar com agrado nossa humildade, para que nenhum de nós ouse aproximar-se do altar do sacrifício de Cristo, como ministro ordenado, sem antes sacrificar a própria vida numa oferta livre e amorosa a Deus.


Enfim, olhemos para a integridade da servidão da Virgem Maria:

Ao aceitar o plano divino, Maria deixou de ser a filha de Joaquim e Ana, uma jovem simples, abandonando os planos que eram seus. Maria, a moça simples, ao dizer sim, ganhou um novo predicado que reformulou a totalidade de seu ser: foi feita Mãe de Deus. Aceitar esta vocação, o chamado que o mensageiro de Deus lhe havia feito, esta decisão implicou a uma mudança total da sua vida. E já não havia como voltar atrás. Tornando-se Mãe de Deus e, consequentemente, Mãe da Igreja que Deus desejou estabelecer. Ela mesma dirá no Magnificat que será proclamada Bem-Aventurada por todas as gerações. Assunta ao Céu e Coroada como Rainha, nela não há absolutamente nada que não seja de Deus.





Servir a Deus, implica, dispor-se de forma integral; consagrar-se é muito mais do que entregar uma parte da vida. O servo do Filho de Maria deve reconhecer que sua existência é dependência total, que consagrar-se é o único modo possível de realizar exatamente o que Ele quer, seja em que vocação for.

Cristo Jesus é nosso exemplo máximo: seu corpo foi totalmente ferido e, na cruz, já não possuía aparência humana. Ele tudo dispôs como oferta de reparação, ato de amor indiviso, toda sua vida foi oferta diante do Pai.

Na Eucaristia, Cristo se entrega por inteiro a nós: seu CORPO, seu SANGUE, sua ALMA e sua DIVINDADE. Ao comungarmos, recebemos Deus inteiro dentro de nós. Sim, Ele fez isto por amor. Amor às miseráveis criaturas, que tanto O ofendem e O desprezam. Miseráveis por não se voltarem ao Amor. Na verdade, com nossos lábios, proclamamos que amamos a Deus, porém em nosso coração há tantas divisões, tantas corrupções daquilo que Deus sonhou para nós...

O Sacerdote, cheio do desejo de configurar-se a Cristo, não somente através do Sacramento da Ordem, mas também numa íntima configuração à mansidão e humildade de Coração do Senhor, deve, em cada dia de sua vida, tomar a cruz e realizar sua oferta de si mesmo na integridade de seu ser. Já nesta etapa de nossa formação, deve haver em nossos corações a certeza do valor de resgate de cada alma. As almas valem muito caro, algumas exigem grande sacrifício. Se o sacerdote não se oferta inteiramente a Deus, para que seu ministério seja fecundo, sua missão de salvar almas será um fracasso, e ele pagará por cada alma que ele deveria ter dado o devido cuidado e, por sua negligência, por falta de amor a Deus, acabou por se perder.

Levemos em conta, a grandeza do Serviço do Altar.

Para ser a Mãe de Jesus, para este serviço sublime, Deus escolheu a Cheia da Graça, a Bendita entre todas as mulheres da terra. Para que nos configuremos ao Cristo Cabeça, Deus também deseja servos totalmente íntegros que, de maneira humilde, busquem somente a Ele, oferecendo a si mesmos com um coração indiviso. E neste excelso e divino serviço em que iremos confirmando nosso sim, em nossa liberdade fazermo-nos escravos do Amor, só então encontraremos a Felicidade que tanto almejamos, que é o próprio Deus – princípio, meio e fim de nossa vocação.

Caros irmãos, todas estas palavras foram objeto de estudo e de oração. Espero que de alguma forma, elas possam contribuir para o nosso crescimento espiritual.

Olhemos, por fim, para a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, a Serva do Senhor, a Cheia de Graça, a Toda Santa, e como oferta de nossa devoção, recitemos devotamente uma Ave-Maria.


Sem. Christian Deivisson



Maceió - AL

08/05/2021


 
 
 

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