É tempo de rasgar o coração
- Maxwell Guedes

- 1 de mar. de 2017
- 4 min de leitura

Estamos iniciando na Igreja o período de quarenta dias, em que somos convidados à prática do jejum, da oração, da penitência, num processo extenso de conversão, onde todos somos chamados a caminhar em direção ao Deus Misericórdia. A este tempo chamamos, Quaresma.
Este longo período é, para todo povo cristão, um tempo de rasgar o coração. Mas não no sentido literal, onde enterraremos uma lâmina no peito para estraçalhar o coração; essa ação deve ser espiritual. Precisamos abrir nosso coração para expor toda imundície, toda podridão, toda fraqueza e falhas, todo pecado, não para nos lamentarmos, ou sentir pena, mas para apagar a nossa configuração atual de pecado, nossa condição de vida suja de lama e restaurar em nós a configuração de fábrica, viver na a condição de verdadeiros filhos e servos de Deus, para qual fomos chamados.
O tempo da Quaresma, é caminho de preparação para a vivência do maior mistério e cume na vida da Igreja em Cristo, a Páscoa. Precisamos fazer um exame de consciência, rever em quais aspectos na nossa vida precisamos mudar, e determinarmo-nos a viver bem este tempo, para que, ao final, possamos participar com maior satisfação e graça da festa da Páscoa do Senhor.
Como já dissemos, Quaresma é tempo de conversão, que quer dizer voltar-se para outra direção, no nosso contexto é voltar-se para Deus, rasgar o coração e mudar de vida, viver uma vida de buscar a Deus. Já no século IV a Quaresma é um período penitencial em preparação para a Páscoa. Desde o século XI, este tempo inicia-se liturgicamente com a bênção e imposição das cinzas, sinal introduzido no século IX para acompanhar a imposição das mãos do bispo sobre o penitente que iniciaria seu processo de arrependimento, penitência e reconciliação. “Quem cometesse falta grave, se dirigia ao bispo para confessar sua falta. Mesmo que a confissão fosse secreta, o processo penitencial restante era público. O pecador recebia uma penitência, que devia cumprir antes da reconciliação e absolvição. A duração da penitência variava conforme as regiões” (NETO, p. 65). A cinza tornava público o pecador e sinalizava o “reconhecimento do pecado e da miséria humana diante de Deus” (NETO, p. 66).
O jejum é prática comum deste tempo, mas a Igreja já não exige esta prática veementemente. Ela serve para “orientar o espírito a esse respeito: afastar-se do pecado, amar a Deus e ao próximo, alimentar-se mais abundantemente da Palavra de Deus e levar uma vida de oração mais intensa, fazer com que os pobres sejam beneficiados com o que se economiza jejuando” (GELINEAU apud NETO, p. 63). A Igreja insiste mais na prática do amor ao próximo. A caridade é um apelo insistente, urgente e permanente. Provavelmente por este motivo, a Igreja no Brasil desenvolve neste período a Campanha da Fraternidade, que nos coloca na condição de irmãos uns dos outros; responsáveis pelas necessidades de todos e do planeta.
Nas pequenas coisas do nosso cotidiano podemos viver intensamente este tempo, de modo peculiar, exigindo mais de nós mesmos. Contudo, deve ser observado que “o tempo quaresmal é um tempo de sobriedade” (NETO, p. 63), por isso na liturgia omite-se o hino de louvor e o Aleluia e evita-se palmas. O espírito de sobriedade quaresmal deve aparecer também no nosso convívio social.
O jejum e a abstinência, são práticas comuns de mortificação do corpo, que servem como orientação para livrarmo-nos dos vícios e instintos que nos levam ao pecado. A quaresma é um caminho de sofrimento que nos configura a Cristo com mais intimidade, de modo que, dá convicção ao que dizemos na oração do Angelus: “que cheguemos por sua paixão e morte de cruz à gloria da ressurreição”. Sofrer com Cristo no tempo quaresmal, lembrando os quarenta dias que Ele passou no deserto, nos faz participar com mais glória da ressurreição de Jesus. Não se chega à Páscoa da ressurreição de Cristo sem viver uma boa experiência quaresmal.
Vivamos esta Quaresma com intensidade. Busquemos praticar obras de misericórdia espirituais e corporais, assistir as necessidades dos irmãos, praticar o perdão, como Jesus nos ensina na parábola do rei e o empregado (Cf. Mt. 18, 21-35). Em um de seus sermões, o papa São Leão Magno exorta que “todo tempo é próprio, contudo, estes dias da Quaresma, a isso nos exortam de modo especial” (Sermo 10 de Quadragesima, 3-5: PL 54,299-301). Devemos fazer intensamente este caminho, para que compreendamos que a conversão é um processo diário, não acontece da noite para o dia, num insight. A conversão parte de reconhecermos os nossos pecados e voltarmo-nos para o Pai arrependidos, buscando Sua misericórdia infinita cada dia (Lc 15, 1-3.11-32 – Filho pródigo). Precisamos aceitar Jesus, mas não como dizem os protestantes quando tentam nos convencer de irmos para religião deles. Aceitar Jesus é assumi-lo em nossa vida; é viver cada dia praticando os Seus ensinamentos; é testemunhá-lo, anunciar Seu nome ao mundo nas pequenas ações. São Tiago nos exorta que, a conversão é um caminho particular, mas caminho de irmãos (Tg 5, 16.19-20), onde não podemos seguir negligenciando a nossa responsabilidade de ajudar o outro. Pratiquemos, pois, a quaresma cotidianamente, para bem vivermos, não somente a Páscoa anual, mas a Páscoa semanal (dominical) do Senhor, verdadeiramente.
Rezemos pelos seminaristas, pelos padres, os bispos e pelo Papa, para que sejam para nós porto seguro na caminhada com cristo.
REFERÊNCIA
NETO, Pe. Antônio Valentini. Liturgia: Fonte vital da comunidade. Petrópolis:Vozes, 1985.






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